Androides sonham com ovelhas elétricas? [Resenha]

Oi leitor! Bem-vindo ao meu blog 🙂

Não vou me estender muito na apresentação, mas espero que se sinta à vontade por aqui! Separe uma xícara de café, uma manta quentinha e aconchegue-se na sua poltrona favorita: eu prometo que vai ser uma leitura supimpa.

Já tem um tempo que eu venho alimentando a ideia de resenhar os livros que leio. Sempre tive uma paixão particular pela leitura, assim como sempre fiz um bloco de notas mental no qual eu anotava todas as minhas impressões da narrativa. Bom, mas ele nunca ia para o papel. Ou, no caso, nunca era transformado em bits e jogado nesse mundão da internet. Porém, um belo dia, o famoso peso na consciência caiu na minha cabecinha e eu pensei: bora? Bora! E cá estou eu, pronta para resenhar meu primeiro livro!

Espero que gostem do conteúdo a seguir! Além de ser um clássico do universo sci-fi, foi a inspiração para um marco do cinema e, sou suspeita pra falar, é uma das histórias mais incríveis de Philip K. Dick!

Sobre a ficção científica soft

Antes de começar a falar do livro, queria comentar um pouquinho sobre o subgênero no qual ele está inserido: o soft sci-fi ou ficção científica soft. Claro, isso é uma opinião muito particular. Ao longo da narrativa vemos o autor flertar discretamente com o cyberpunk ou mesmo, em alguns momentos específicos, levar um toque do melodrama das space operas à história.

A ficção científica soft tem como característica principal não se prender em detalhes técnicos minuciosos ou estabelecer sua narrativa em cima de uma base científica de alta precisão. Os elementos futuristas são pano de fundo ou conduzem de forma sútil uma história que se destaca muito mais por suas abordagens às ciências humanas e a construção de detalhes dos personagens.

É essencial que o leitor saiba dessa diferenciação antes de começar a leitura: por ter sido escrita em 1968, a história tem um forte caráter especulativo sobre os elementos que viriam a compor o futuro imaginado na obra (não confundir com ficção especulativa!). Carros voadores, eletrodomésticos automatizados e é claro, animais elétricos, são presenças constantes em cada capítulo e obviamente, não são exatamente aquilo que chamamos de elementos com alto rigor científico.

Mas dentro do subgênero estes não são detalhes que empobrecem a obra, muito pelo contrário: são essenciais para o desenvolvimento da história, assim como para a construção de pontos críticos e twists.

Ficou curioso, leitor? Então bora falar um pouquinho do livro!

Que título é esse?

Androides sonhando? Animais elétricos? Afinal, o que está acontecendo?

Um futuro distópico, no qual a humanidade dá seus últimos suspiros em um planeta Terra totalmente devastado por uma guerra biológica. A maioria dos seres humanos já emigrou do planeta, e os que ficaram tem de lidar com uma poeira radioativa, capaz de modificar toda a sua capacidade cognitiva.

Claro que a raça humana não foi a única afetada pela guerra. Animais, e maioria dos seres vivos, não resistiram ao caos radioativo e aos poucos foram se extinguindo do planeta Terra. E para substituí-los? Nada melhor do que um animal elétrico! Feitos à semelhança dos “originais”, os pets presentes na história não se restringem aos cachorros e gatos domésticos. É possível criar, no terraço mesmo, ovelhas, cabras, potros e até mesmo um avestruz!

E os androides? Bom, imaginem que colonizar um novo planeta não é fácil e, com a raça humana aos poucos se extinguindo, era necessário o surgimento de novas tecnologias para realizar trabalhos pesados e com alto grau de dificuldade. E uma dessas tecnologias, curiosamente muito mais inteligente do que os seres humanos, é o androide (ou andy). Organismos de biologia sintética e datados, foram criados para realizar todo e qualquer tipo de atividade mecânica nas novas colônias.

A premissa dos contrapontos entre animais reais e elétricos, androides e humanos é apresentada a todo momento durante a narrativa e, embora não explorado com mais afinco, esse paralelo é essencial para entender as abordagens de caráter filosófico que permeiam o romance.

A edição que tenho, de 2014. Editora Aleph.

Sobre a história

Nesse clássico dos anos 60, acompanhamos Deckard, sua busca pelos chamados andys e o auto questionamento moral do protagonista sobre que é ser humano e sua capacidade empática.

Embrião literário para o clássico Blade Runner, Androides se distingue do seu gêmeo audiovisual por sua narrativa acelerada, inquieta e pouco ambígua. No livro de Philip K. Dick são poucas aberturas que permitem ao leitor questionar a humanidade de Deckard.

A construção do personagem ocorre de forma impetuosa, sem maiores gradativos. No primeiro capítulo logo somos apresentados ao protagonista e sua esposa, durante um despertar pouco comum: são acordados por uma espécie de tecnologia capaz de incutir sentimentos e emoções com base em uma programação pré-estabelecida. Enquanto Deckard se agarra aos últimos resquícios de humanidade, ansiando por uma ovelha elétrica, Iran mostra-se pouco afoita diante do animal.

Logo em seguida nos encontramos com John Isidore. Ironicamente apresentado como um Cabeça de Galinha (denominação dada àqueles que sofreram efeitos diretos em seu organismo com a Guerra Terminus), é um humano sobrevivente na Terra, responsável por dirigir um veículo em um Hospital de Animais Falsos.

A apresentação dos dois protagonistas é necessária para compreender a fundo a motivação dos personagens ao longo da narrativa.

Depois dessa breve introdução, dentro desse mundo inabitado e tomado por poeira radioativa, somos apresentados ao fio condutor da história: Deckard, caçador de recompensas, é incumbido de terminar a “aposentadoria” de um grupo de androides que fugiu de Marte para a Terra.

Modelos avançados, chamados de Nexus-6, são capazes de serem detectados através de um teste empático chamado Voight-Kamppf. O teste consiste em uma série de perguntas relacionadas às ações humanas diante de situações limítrofes hipotéticas. Vale aqui frisar que entende-se por limítrofes tudo aquilo que envolve situações em que outros seres naturais são colocados em um determinado risco.

Desenvolvida ao longo de um único dia, somos apresentados aos diversos androides fugitivos. Cada um com seu arco particular, eles serão o embasamento para a construção de Rick e Isidore, embora o primeiro seja o elemento que conduz a narrativa.

Para deixar a resenha livre de spoilers, não citarei quais personagens são humanos e quais são androides. Essa diferenciação é perceptível no texto ainda que, não seja explícita em alguns momentos, ou mesmo em outros que requerem o teste citado acima.

Em paralelo com a narrativa podemos encontrar diversos elementos existenciais, que ficam ainda mais aparentes quando ficamos em frente à figura de Wilbur Mercer.

Wilbur quem?

Em paralelo com a história central, sobre a aposentaria de androides, nos deparamos com a figura de Wilbur Mercer. Figura imagética, representada virtualmente em uma caixa de empatia, é o elo máximo de ligação entre todos os seres humanos, da Terra e das colônias.

A caixa de empatia consiste em uma tecnologia de realidade virtual na qual o usuário segura dois manetes enquanto visualiza uma tela. Nesta experiência ele é levado até Mercer que, em uma clara alusão ao mito de Sísifo, sobe uma colina de forma incessante, sem nunca atingir o topo. Neste caminho, ele é atingido por pedras que causam ferimentos reais a quem utiliza a caixa.

O objetivo dessa tecnologia? Gerar empatia e o sentimento de pertencimento a todos os humanos, lembrando-os do seu caráter de humanidade, uma vez que a solidão e a distância atravessam um mundo pós-apocalíptico.

O fato de ser usada somente por seres humanos e que somente estes tem acesso à figura salvadora de Mercer (uma referência não tão discreta à propriedade messiânica de algumas religiões) levanta, talvez, um dos questionamentos mais interessantes do livro: o que caracteriza a existência humana?

Do ponto de vista filosófico existencialista, amplamente difundido no começo do século XX, não existe nada que defina o ser humano antes dele mesmo. Sua existência começa a partir do momento que este tem consciência de si e suas atitudes perante ao mundo. Isso lhe dá a liberdade, dentro das limitações do mundo e históricas, para que possa construir seu arquétipo de “existir”.

Partindo dessa definição, é possível compreender os androides como humanos? Uma vez conscientes de si e de sua liberdade de existir, não há nada que os impeça de requisitar sua humanidade e portanto deixarem de ser apenas uma mão de obra escrava nas novas colônias.

Daí entra a caixa de empatia de Mercer: um androide, teoricamente, é incapaz de sentir a afinidade pelo sofrimento de outro ser, e essa tecnologia é a prova final de que eles são máquinas, não humanos (lembrando que o teste Voight-Kampff é estruturalmente científico).

Porém, em determinado momento da narrativa temos um twist que coloca em xeque esse instrumento de determinação, assim como diversos personagens humanos que demonstram uma baixa capacidade empática ou mesmo androides tão sedentos por “existir” que desenvolvem atitudes que, claramente, poderiam ser tidas como humanas.

É possível desenvolver algumas linhas de reflexão sobre a abordagem do o que é ser humano. Porém acredito que posso me limitar, nesse momento, a deixar o leitor curioso e criar suas próprias teorias, hehe.

Vale a pena?

Particularmente, sim! Sou uma apaixonada por ficção científica e esse livro com certeza é um dos meus favoritos do gênero. É uma leitura fluída, rápida e repleta de reviravoltas.

Claro, nem tudo são flores. Acredito (uma opinião pessoal) que o autor peque em deixar pontas soltas no arco de alguns personagens, ou não explicitar tão detalhadamente algumas motivações da narrativa.

Lembrando que: isso pode ser entendido como uma característica presente no subgênero e na escrita de PKD. Para alguns esses pontos podem incomodar, a princípio, mas depois da segunda, terceira, quarta leitura (tenho certeza haverá mais de uma!), eles se tornam características queridas.

Porém, não é algo que me incomode ou atrapalhe minha leitura. Tenho um enorme carinho por essa história e com certeza ela foi uma das minhas bases para procurar um universo ainda maior dentro desse gênero literário tão amplo que é a ficção científica.

Título: Androides sonham com ovelhas elétricas?

Autor: Philip K. Dick

Ano de lançamento 1968

Ano de Lançamento das Edições Brasileiras: 2014, 2018 e 2019.

Editora: Aleph

(Os três anos de lançamentos são referentes às reedições pela editora aqui no Brasil. O volume que tenho em casa é o primeiro, de 2014. O de 2018 é uma edição comemorativa de 50 anos, já com o título extra de Blade Runner e o de 2019 apresenta ambos os títulos, com destaque para BR na capa principal.)

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