Atômica – A Cidade Mais Fria [resenha]

Na última resenha falamos um pouquinho de um futuro hipotético, no qual o mundo se encontra totalmente destruído por conta de uma guerra biológica nuclear. Mas você sabia que essa “guerra” esteve bem pertinho de acontecer?

Depois da 2ª Guerra Mundial, o mundo ficou dividido entre duas grandes potências: a União Soviética e os Estados Unidos representando, respectivamente, as correntes econômicas do socialismo e capitalismo. A esse conflito foi dado o nome de Guerra Fria. Mas por quê?

Sem confrontos diretos, a Guerra Fria foi caracterizada por seus embates ideológicos, culturais e políticos. Além disso, ambas as potências afirmavam seu poderio bélico e, realmente, o mundo quase chegou ao ponto de uma 3ª Guerra (e dessa vez as consequências seriam ainda mais desastrosas por conta do armamento nuclear!).

É nesse contexto que acontece A Cidade Mais Fria. A narrativa segue Lorraine Broughton, agente do MI6, em Berlim, durante os últimos dias antes da queda do Muro. Um thriller envolvente, essa Graphic Novel é a aposta certa para quem curte história, cinema e narrativas de espionagem!

O que é uma Graphic Novel?

Embora tenha ganhado destaque nos últimos anos com o aumento do consumo de quadrinhos, as graphic novels tem se destacado em meio ao mercado editorial.

Ao contrário das revistas semanais, são histórias únicas que, assim como um livro, ocorrem no intervalo entre a primeira e a última página.

Para entender melhor que tal voltarmos um pouquinho no tempo? O primeiro uso do termo ocorreu em 1964 pelo crítico de quadrinhos Richard Kyle como uma breve explicação dos termos que usaria em suas futuras críticas. Neste artigo, Kyle expõe a necessidade de firmar novas palavras para o surgimento de um novo estilo de histórias em quadrinhos: mais maduro e pautado por esforços artísticos e intelectuais em cima de suas narrativas e desenhos.

Essa definição ainda é comumente associada às Graphic Novels, embora seja possível encontrar livros para uma público mais jovem, com narrativas unidimensionais e com conteúdo mais ameno (lembrando que, de forma alguma, isso põe em xeque a qualidade destas!).

Ainda, segundo o Splash Pages (leitura necessária para entender esse universo, clique agora mesmo no link!) o termo Graphic Novel conta um leque de definições, que vão desde o seu entendimento como um romance (conforme Bryan Talbot), passando por uma estratégia que abraça todos os tipos de arte (Bill Kartalopoulos), até o manifesto de Eddie Campbell que determina as particularidades das Graphics, assim como o seu caráter de movimento. E é claro, também não se pode deixar de fora a divertida anedota sobre a popularização do termo pelo mestre Will Eisner na hora de vender seu trabalho, Um Contrato com Deus, para um editor.

Aqui na resenha prefiro entender as Graphic Novels como livros. Esse percepção me permite uma maior exploração de contextos, assim como as nuances da narrativa.

Capa da edição de 2017

Um resumo sobre os dias frios

A Cidade Mais Fria (aqui, o título original. O plus “Atômica” veio depois de sua reedição, como promoção do filme inspirado na GN) se passa em dois momentos: entre 28 de outubro e 9 de novembro de 89, nos dias que antecederam a queda do Muro de Berlim, e em 11 de novembro de 89, durante um depoimento da personagem principal ao seu chefe. Mas afinal, o que foi o Muro de Berlim? E o que ocasionou sua queda?

Como citado anteriormente, após a 2ª Guerra Mundial, o mundo europeu ficou dividido em zonas de influência, com o leste predominantemente tomado pela URSS e o oeste às voltas com os Estados Unidos. Essa separação ficou ainda mais evidente com as conferências de Ialta e Potsdam, que determinaram as principais zonas de administração da Alemanha, assim como sua divisão.

A princípio separada em quatro zonas de influência (França, Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética), logo a Alemanha se tornou bipolarizada. Berlim, a capital situada no Oriente, também não escapou dessa divisão sendo separada entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental.

O marco dessa divisão foi o Muro de Berlim. Levantado pela República Democrática Alemã em 1961, como forma de conter a evasão dos cidadãos para o lado ocidental (que vinha recebendo altos investimentos dos Estados Unidos), este durou até novembro de 89, sendo um marco para fim da Guerra Fria.

Durante esse período de mais de quarenta anos, houveram diversas manifestações e embates para que cada bloco proferisse sua superioridade, seja através de investimentos em seus países aliados, alianças militares e desenvolvimento tecnológico. E claro não podemos nos esquecer dos famosos agentes secretos, de ambos os lados, responsáveis por obter informações e promover agentes duplos.

Espionagem e Serviços de Inteligência

Antes de começar o tópico, gostaria de trazer um trecho do livro A Era dos Extremos (publicado em 1994), de Eric Hobsbawm, sobre o fator espionagem durante a Guerra Fria:

“A Guerra Fria que de fato tentou corresponder à sua retórica de
luta pela supremacia ou aniquilação não era aquela em que decisões
fundamentais eram tomadas pelos governos, mas a nebulosa disputa entre
seus vários serviços secretos reconhecidos e não reconhecidos, que no
Ocidente produziu esse tão característico subproduto da tensão
internacional, a ficção de espionagem e assassinato clandestino. Nesse
gênero, os britânicos, com o James Bond de Ian Fleming e os heróis
agridoces de John le Carré — ambos tinham trabalhado nos serviços
secretos britânicos —, mantiveram uma firme superioridade, compensando
assim o declínio de seu país no mundo do poder real. Contudo, a não ser em
alguns dos países mais fracos do Terceiro Mundo, as operações da KGB, CIA
e órgãos semelhantes eram triviais em termos de verdadeira política de
poder, embora muitas vezes dramáticas.”

É interessante notar que, apesar do seu caráter extremamente romantizado nos veículos de cultura pop, a espionagem foi uma parte muito pequena em meio as disputas de poder (o que não anula de forma alguma sua importância no contexto da Guerra Fria), se destacando muito mais, posteriormente, em narrativas ficcionais.

O mais importante aqui nesse ponto é perceber que, embora os conflitos entre agências de inteligência tenham feito parte de caminhos históricos conhecidos, a maioria dos desdobramentos ocorreu internamente entre estas, em disputas particulares de informações e conversas secretas.

Mas é claro que isso não míngua o imaginário popular (e nem desta que vos escreve) sobre agentes duplos, espiões super secretos e missões que beiram o impossível. Muito pelo contrário: por ser uma parte pequena de um contexto amplo, a espionagem alimenta ainda mais os devaneios de leitores e escritores, que se encantam com narrativas cheias de ação, mistério e suspense. Como a que vamos comentar agora!

Ah, antes de começar, é válido deixar aqui um vocabulário rápido sobre as principais agências citadas no livro

  • MI6: Serviço de inteligência britânico
  • STASI: Polícia secreta e de inteligência da antiga Alemanha Oriental
  • DGSE: Agência de inteligência do governo francês
  • CIA: Serviço de inteligência dos Estados Unidos
  • KGB: Polícia secreta e de inteligência da antiga União Soviética

Agora sim, vamos para A Cidade Mais Fria!

Sobre o livro

Como dito anteriormente, a narrativa, escrita por Antony Johnston e ilustrada por Sam Hart, acompanha dois momentos da agente Lorraine Broughton. O primeiro é durante seus dias em Berlim, em meio a queda do Muro, para recuperar uma lista secreta e perigosa com o nome de todos os espiões que atuam na cidade. O segundo é durante um depoimento da agente sobre o que ocorreu exatamente naqueles dias.

Com uma narrativa inegavelmente cinematográfica, a sensação ao lermos o livro é de que estamos acompanhando um filme. O ilustrador, Sam Hart (curiosidade: ele é metade brasileiro e vive por aqui mesmo!), construiu as cenas em um formato que lembra o famoso storyboard (sequência de quadros de uma película), permitindo assim uma história dinâmica, totalmente focada no desenvolvimento.

A beleza de Atômica vem justamente dessa combinação perfeita de um roteiro instigante, sem maiores enrolações, com desenhos pensados em servi-lo e sem pausas para “easter eggs no canto do quadrinho ou uma referência no texto. Claro que esses detalhes não são negativos, pelo contrário: nos divertem, e nos fazem sentir parte da história da qual eles fazem parte. Mas em Atômica essa fluidez, sem maiores pretensões de chamar a atenção do leitor, é o grande charme da narrativa.

Voltando um pouquinho para a parte cinematográfica, é constante o uso de técnicas típicas do cinema ao longo da história. Em momentos de tensão, o zoom in dá as caras, focando no rosto do personagem (foi um trocadilho involuntário, juro). Enquadramentos também são parte fundamental da Graphic Novel (vale aqui uma dica: preste muita atenção na cena inicial e onde estão pés da protagonista, esse detalhe é muito importante no fim da história!), permitindo assim ao leitor a mesma emoção de como se estivesse assistindo um filme no cinema.

Outro ponto muito bacana é a ausência de cores. Ao contrário do que se pode imaginar, a história totalmente em preto e branco deixa um clima de filme noir, reforçando ainda mais os pontos de suspense.

Sobre o restante do livro? Bom, não posso contar muito mais, se não é spoiler! 🙁

Mas ele é repleta de ação, agilidade e um plot twist de cair o queixo (juro, fiquei uns 3 minutos boquiaberta olhando pra última página).

Interior do livro

Vale a pena?

Demais! A Cidade mais Fria, ou Atômica, promete encantar diversos nichos: os fãs de HQ, os fãs de cinema, historiadores e é claro, os apaixonados pelo mundo de espionagem.

Se você já leu, conta aqui embaixo nos comentários o que achou, se ainda não: corre agorinha para ler esse livro incrível!

Título: Atômica – A Cidade Mais Fria

Autores: Antony Johnston e Sam Hart

Ano de lançamento: 2012

Ano de Lançamento da Edição Brasileira: 2017

Editora: DarkSide Books

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